Prisma decompondo a luz — Licenciatura em Física
Introdução ao Laboratório
Licenciatura em Física — IFMG campus Ouro Preto
O prédio do Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas, na Praça Tiradentes, em Ouro Preto
Trilha de Aprendizagem T0B
O Sistema Internacional e o Quadro Geral de Unidades
Júlio Azevedo · Felipe Beato
IFMG campus Ouro Preto - Coordenadoria da Área de Física (CODAFIS) - Núcleo de Inovação e Desenvolvimento de Experimentos Científicos (NIDEC) · ILB · T0B · Primeira edição · 2026
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“A todos os tempos, a todos os povos.”
— Condorcet (1743–1794)
Nicolas de Condorcet (Ribemont, 1743 — Bourg-la-Reine, 1794). Matemático e filósofo francês, relator da comissão de pesos e medidas da Revolução. A divisa foi gravada no metro-padrão depositado nos Arquivos da República em 1799: a medida deixava de pertencer a um rei, a uma região ou a um ofício, e passava a pertencer a todos — que é a única forma de ela valer fora de quem mediu.
Figura 2
Figura 2 — A frase de Condorcet escrita à mão na página de um caderno; ao lado, sobre a mesma mesa, uma balança de dois pratos e uma régua — o padrão antigo e o padrão de hoje.
Ato I — O Gancho

A quinze minutos a pé desta sala, na Praça Tiradentes, existe uma balança que pesou ouro. Ela está no Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas, e o que ela media não era grama: era oitava. Ao lado, o quilate media a pureza. Quem vendia e quem comprava precisavam confiar naquele prato — e confiavam, porque havia um padrão, guardado e conferido.

Figura 3
Figura 3 — Sofia, Pedro, Lucas e Barbara diante da balança de pesar ouro do Museu de Ciência e Técnica: quatro adultos olhando o instrumento que decidia negócios antes de existir o Sistema Internacional.

Sofia parou na frente dela (Figura 3) e fez a pergunta certa: uma oitava é quanto? A resposta está numa tabela — 1 oitava ≈ 3,586 g — e é aí que a coisa fica interessante. Para responder quanto, foi preciso traduzir a oitava para outra unidade. Toda unidade só significa alguma coisa quando pode ser comparada com outra; e a comparação só é possível se houver um padrão que as duas aceitem.

Pedro fez a segunda pergunta, a que esta trilha inteira responde: e quem decide como isso se escreve, aqui no Brasil? No laboratório, o professor Julio respondeu sem discurso. Projetou na tela um documento de quinze páginas, publicado pelo Inmetro: o Quadro Geral de Unidades de Medida no Brasil (QGU). É o Sistema Internacional de Unidades (SI) — o mesmo em mais de duzentos países — escrito para uso no país, na tradução luso-brasileira de 2021 feita pelo Inmetro e pelo Instituto Português da Qualidade (IPQ).

Mas a trilha não começa pela tela. Começa pela sua mão. No encontro você mede seis coisas em duas bancadas — a espessura de uma folha de papel, o diâmetro de uma moeda, a inclinação de uma rampa, a massa de um clipe, a força-peso sobre 100 g e o tempo de reação de um colega. Nenhuma delas é difícil. O difícil, e é o que esta trilha ensina, é escrever o resultado de um jeito que outra pessoa entenda exatamente o que você mediu. Cada uma das seis tarefas leva a uma parte do QGU.

Porque é isso que uma unidade faz: ela não é enfeite do número. Ela é metade do resultado.

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Museu de Ciência e Técnica da Escola de Minas — Praça Tiradentes, Ouro Preto

Fundado em 1876 junto com a Escola de Minas, o museu guarda uma das maiores coleções de mineralogia do país — e, no que interessa a esta trilha, os instrumentos de medida de quem pesava, ensaiava e certificava o ouro. Balanças de precisão, pesos-padrão, réguas e goniômetros do século XIX: o mesmo problema de hoje, com a tecnologia de então.

Vá até lá — ou percorra a praça pelo Street View. Procure um instrumento de medida e responda a duas perguntas: que grandeza ele media e em que unidade. Depois procure essa unidade no QGU: ela está lá?

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Ato II — O Desenvolvimento
Cinco tópicos: as cinco partes do Quadro Geral de Unidades

O QGU tem cinco partes: as sete unidades de base, os prefixos, as regras de grafia e pronúncia, as unidades fora do SI e uma tabela geral de unidades. Os cinco tópicos deste texto são essas cinco partes, na mesma ordem — e cada regra aparece com o número da seção e da tabela de onde saiu, para que você aprenda a consultar o documento, e não só a repeti-lo.

Figura 4
Figura 4 — As duas estações prontas antes da aula: à esquerda, régua, paquímetro, transferidor e a rampa de fórmica; à direita, balança, dinamômetro, a massa de 100 g e a régua do teste de reação.

As duas bancadas (Figura 4) ficam de pé para o encontro seguinte, o da T01. Sofia e Pedro começam na Estação A (comprimento e ângulo: a folha, a moeda, a rampa); Lucas e Barbara, na Estação B (massa, força e tempo: o clipe, o peso de 100 g, o tempo de reação). Na metade do tempo, trocam. As seis medidas entram no Roteiro de Bancada (RB) numa tabela de uma linha por tarefa — valor, unidade e instrumento —, a forma de tabela mais simples da disciplina. A partir da T01 ela ganha a coluna da repetição, depois a do par acoplado, depois a do tempo; o hábito de preenchê-la nasce aqui.

Tópico 1 — As sete unidades de base (QGU, parte 1)

O mundo tem um número ilimitado de grandezas. O SI se sustenta em sete, e todas as outras se constroem a partir delas. Mas antes de saber quais são, vale saber por que precisam ser as mesmas para todo mundo.

No começo, a medida era o corpo. O pé, o palmo, a braça. Funcionava dentro da aldeia e falhava entre aldeias, porque o pé do vizinho não é o seu. Nesta cidade o problema tinha endereço: a Casa dos Contos, a poucos metros do museu, existia para pesar e registrar o quinto que ia para a Coroa — medida, imposto e Estado no mesmo gesto, cada um com os seus pesos-padrão guardados a chave. Em 1791 a Revolução Francesa propõe uma unidade que não pertença a ninguém, o metro; em 1875 a Convenção do Metro cria o Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), e a Conferência Geral de Pesos e Medidas (CGPM) passa a decidir as definições. O Brasil é signatário, e quem cuida disso aqui é o Inmetro.

O que o QGU diz. A Tabela 1 do documento traz, para cada grandeza de base, a unidade no singular e no plural, o símbolo, a definição e a constante definidora. O quadro abaixo resume a tabela.

Quadro 1 — Unidades de base e constantes (QGU, Tabela 1)
GrandezaUnidadeConstante definidora
temposegundo (s)ΔνCs = 9 192 631 770 Hz
comprimentometro (m)c = 299 792 458 m/s
massakilograma (kg)h = 6,626 070 15 × 10−34 J s
corrente elétricaampere (A)e = 1,602 176 634 × 10−19 C
temperatura termodinâmicakelvin (K)k = 1,380 649 × 10−23 J/K
quantidade de matériamol (mol)NA = 6,022 140 76 × 1023 mol−1
intensidade luminosacandela (cd)Kcd = 683 lm/W

Repare na forma de cada definição no QGU: “tomando o valor numérico fixado” da constante. O número não foi medido e arredondado; ele foi fixado, sem incerteza, e é a unidade que se ajusta a ele. O segundo vem do átomo de césio; o metro vem do segundo e da velocidade da luz; o kilograma vem do metro, do segundo e da constante de Planck.

Figura 5
Figura 5 — As sete unidades de base do SI, cada uma com o seu símbolo — e as três que a bancada usou, destacadas.

A revolução de 2019. Até pouco tempo atrás, o kilograma era um objeto: um cilindro de platina e irídio guardado num cofre em Sèvres, na França, desde 1889 (Figura 6). Todas as balanças do mundo dependiam, no fim da cadeia, daquele cilindro. Em 20 de maio de 2019 isso acabou: o kilograma passou a ser definido pela constante de Planck, e o ampere, o kelvin e o mol foram redefinidos do mesmo modo. Desde então, as sete unidades de base se apoiam em constantes da natureza — é a 9.ª edição do SI, a que o QGU traduz.

Figura 6
Figura 6 — De 1889 a 2019, o kilograma foi este objeto: um cilindro de platina e irídio guardado em Sèvres sob três campânulas de vidro. Desde 2019, ele é a constante de Planck.

Na bancada. Três das sete passaram pelas suas mãos (Figura 5). Na A1, a pilha de 100 folhas mede comprimento, em metro e seus submúltiplos. Na B1, vinte clipes na balança medem massa, em kilograma. Na B3, a régua que cai entre os dedos mede tempo — e mede de um jeito curioso: o que se lê é a distância h que a régua caiu, e o tempo vem de t = √(2h/g). É a primeira medida indireta da disciplina.

Aplicação — metrologia. A balança do laboratório vale porque pode ser comparada a um padrão, que se compara a outro, que termina numa constante da natureza. O nome disso é rastreabilidade: uma cadeia de comparações sem buracos. Sem ela, o número que você escreveu é uma opinião.

Aplicação — prática docente. Guarde esta como pergunta de aula: por que trocar um cilindro que funcionava por uma constante? A resposta é sobre confiança, não sobre precisão. O cilindro funcionava; o que ele não podia oferecer era a garantia de continuar igual — e a oitava de Ouro Preto tinha o mesmo problema, com pesos-padrão que dependiam de quem os guardava.

Tópico 2 — Os prefixos (QGU, parte 2)

A espessura da folha de papel deu por volta de 0,1 mm. Escrito assim, o número tem um zero à esquerda que não diz nada. Em micrometros — 100 µm — ele fica na escala certa, sem zeros de enfeite e sem notação científica. É para isso que servem os prefixos, e o QGU dá a lista completa na Tabela 2.

Quadro 2 — Os prefixos do SI (QGU, Tabela 2)
NomeSímboloFator decimal pelo qual a unidade é multiplicada
yottaY1024 = 1 000 000 000 000 000 000 000 000
zettaZ1021 = 1 000 000 000 000 000 000 000
exaE1018 = 1 000 000 000 000 000 000
petaP1015 = 1 000 000 000 000 000
teraT1012 = 1 000 000 000 000
gigaG109 = 1 000 000 000
megaM106 = 1 000 000
kilo ou quilok103 = 1 000
hectoh102 = 100
decada10
decid10−1 = 0,1
centic10−2 = 0,01
milim10−3 = 0,001
microµ10−6 = 0,000 001
nanon10−9 = 0,000 000 001
picop10−12 = 0,000 000 000 001
femtof10−15 = 0,000 000 000 000 001
attoa10−18 = 0,000 000 000 000 000 001
zeptoz10−21 = 0,000 000 000 000 000 000 001
yoctoy10−24 = 0,000 000 000 000 000 000 000 001

O QGU acrescenta duas observações que todo mundo esquece:

  • O kilograma já nasce com prefixo (observação a). Por motivo histórico, a unidade de base da massa traz o kilo no nome. Por isso os múltiplos e submúltiplos se formam sobre o grama: miligrama (mg), nunca “microkilograma”. O clipe da B1, com menos de um grama, se escreve em gramas ou miligramas — e se converte para a unidade de base, o kilograma.
  • Minuto, hora e dia não aceitam prefixo (observação b). Não existe “kilominuto”. Os prefixos valem para as unidades do SI e até para algumas fora dele, mas não para essas três.

Na bancada. A A1 pede o micrometro (Figura 7), porque o milimetro fica grande demais para uma folha. A A2, o diâmetro da moeda no paquímetro, sai em milimetros com uma casa decimal — algo como 23,5 mm.

Figura 7
Figura 7 — Tarefa A1: Sofia aperta a pilha de 100 folhas no paquímetro e Pedro anota. A espessura de uma folha sai da divisão por 100 — e só fica legível em micrometros.

A regra de escolha desta disciplina (não é do QGU, é prática de laboratório): use o prefixo que deixa o número entre 0,1 e 1 000. Não é estética, é redução de erro: número com muitos zeros é número que se copia errado.

Aplicação — história. A oitava é, como o nome diz, a oitava parte da onça, e a oitava se dividia em partes ainda menores. Cada passo da escada tinha o seu fator, nenhum deles 10, e converter era fazer conta. O SI trocou essa escada por potências de 10: mudar de prefixo é mudar a vírgula de lugar.

Aplicação — metrologia e prática docente. O prefixo não muda a medida, muda a escrita dela: 0,000 1 m, 0,1 mm e 100 µm são exatamente a mesma coisa, e a terceira é a única que se lê sem contar zeros. Numa turma de ensino médio, a pilha de 100 folhas é a melhor porta de entrada para o micrometro (Figura 8): ninguém precisa de instrumento caro para chegar a 10−6 m.

Figura 8
Figura 8 — A mesma pilha de folhas numa sala de ensino médio: para chegar a 10−6 m, a turma não precisa de instrumento caro.
Tópico 3 — A grafia e a pronúncia (QGU, parte 3)

Aqui está o tópico que a T01 vai exigir pronto, e o motivo pelo qual esta trilha existe. A parte 3 do QGU é a mais longa do documento, e ela trata de três coisas diferentes: o nome da unidade, o símbolo da unidade e o número que vem antes dele.

O nome (seções 3.1 a 3.3).

  • Começa com minúscula, mesmo quando é nome de cientista: ampere, kelvin, newton (3.1.1). No grau Celsius, o “grau” é minúsculo e o “Celsius” é nome próprio.
  • Prefixo e unidade formam uma palavra só, sem espaço e sem hífen — e sem dobrar a consoante: milisegundo, miliradiano, nanosegundo (3.1.2). O próprio QGU avisa que essa regra contraria o Acordo Ortográfico, e mesmo assim ela vale: em texto de medida, a regra técnica vence a gramatical.
  • Ou tudo por extenso, ou tudo em símbolo: milivolts por milimetro, ou mV/mm — nunca uma mistura dos dois (3.1.3).
  • O plural (3.2): o prefixo não varia; o nome ganha s sem se desfigurar — pascals, mols, decibels, e não “pascais”, “moles” ou “decibéis”. Não ganham s os nomes terminados em s, x ou z (siemens, lux, hertz) nem o que está no denominador (kilometros por hora). Os compostos por multiplicação admitem dois plurais, e a Tabela 3 do QGU dá os exemplos: newtons-metros ou newtons-metro.
  • A pronúncia (3.3): o acento fica na unidade — kilometro, centimetro, milimetro, micrometro. E aqui mora uma distinção que vale ouro numa bancada: micrometro é a unidade; micrômetro é o instrumento. No Brasil, quilômetro, hectômetro, decâmetro, decímetro, centímetro e milímetro admitem também a pronúncia com o acento no prefixo, consagrada pelo uso.

A escolha desta disciplina. O QGU admite as duas formas escritas — kilograma ou quilograma, kilometros ou quilômetros — e as duas pronúncias das seis palavras acima. A Introdução ao Laboratório (ILB) adota a forma do SI: kilograma, centimetro, milisegundo, sem acento e sem consoante dobrada. É uma escolha dentro da norma, não contra ela, e vale em todo material da disciplina, do RB ao relatório.

O símbolo (seção 3.4). O símbolo não é abreviação: abreviação admite variação, símbolo não admite nenhuma.

  • É invariável: sem ponto, sem s de plural, sem índice — 5 kg, e nunca 5 kgs ou 5 kg.; o watt é sempre W, seja a potência mecânica ou elétrica. A única exceção é o litro, que aceita L ou l, para não confundir o l com o algarismo 1.
  • Minúscula, salvo nome próprio: m, s, kg; mas N, Pa, A, porque vêm de Newton, Pascal e Ampère. Por isso 1,6 CM está errado duas vezes.
  • Um prefixo só por unidade: GWh, e nunca “MkWh”.
  • Ponto a meia altura ou espaço no produto de unidades, para evitar ambiguidade: m·K é metro-kelvin; mK é milikelvin.
  • O expoente pega o prefixo junto: dm3 = 10−3 m3, e não 10−1 m3.

O número (seções 3.5 e 3.6). A vírgula separa a parte decimal, com 0 à esquerda quando o número é menor que 1 (0,5, e não ,5). Em trabalho técnico ou científico, os algarismos se agrupam de três em três com pequenos espaços — 9 192 631 770 —, enquanto em documento fiscal ou comercial o agrupamento é com pontos. E entre o número e a unidade há sempre um espaço: 23,5 mm, e não 23,5mm.

Quadro 3 — A grafia que a bancada pede (QGU, parte 3)
Regra (seção)Escreve-seE não
prefixo colado (3.1.2)milisegundomilissegundo, mili-segundo
plural do nome (3.2)pascals, molspascais, moles
símbolo invariável (3.4.1)5 kg   12 s5 kgs   12 seg.
minúscula (3.4.1)1,6 cm1,6 CM   1,6 Cm
um prefixo só (3.4.1)1 ng1 mµg
vírgula decimal (3.5.1)0,98 N0.98 N   ,98 N
espaço (3.6)23,5 mm23,5mm
Figura 9
Figura 9 — As mesmas seis medidas da bancada escritas duas vezes: à esquerda como se costuma escrever, à direita como o SI exige — e o que mudou em cada linha.

Na bancada. A B3 é a tarefa da grafia: o tempo de reação sai em torno de 0,2 s, ou 200 ms — duzentos milisegundos, com um s só. E o fecho do Lab é a parte 3 inteira: cada grupo escreve as suas seis medidas na lousa (Figura 9), e a turma confere a escrita, não o valor. Sai daí a primeira lista de erros de escrita da disciplina, que vira o cartaz da parede.

Aplicação — história. A regra dos pontos e dos espaços tem endereço nesta cidade. O ponto separando milhares é herança do comércio — do mesmo comércio que pesava ouro em oitavas na Casa dos Contos e anotava valores em livros de registro. O QGU conserva essa tradição onde há dinheiro e pede outra onde há ciência.

Aplicação — metrologia. O vocabulário desta trilha — unidade, padrão, rastreabilidade, resolução — está fixado num documento internacional, o Vocabulário Internacional de Metrologia (VIM), publicado no Brasil pelo Inmetro. O QGU faz com a escrita o que o VIM faz com as palavras: tira a ambiguidade.

Aplicação — prática docente. Numa turma de ensino médio, os erros aparecem nesta ordem: Kg com maiúscula, kgs com plural, seg. com ponto, número colado na unidade. Não adianta corrigir um por um; adianta pôr o QGU na mão do aluno e perguntar em que seção está a regra. Quem procura uma vez não esquece.

Tópico 4 — As unidades fora do SI (QGU, parte 4)

O grau que você leu no transferidor da rampa não é uma unidade do SI. Nem o minuto, nem a hora, nem o litro. O QGU não esconde isso: reconhece que algumas unidades fora do SI estão tão enraizadas na história e na cultura que continuarão a ser usadas, e as organiza em vez de proibi-las.

As aceitas em uso com o SI estão na Tabela 4 do documento, cada uma com o seu valor em unidades do SI.

Quadro 4 — Fora do SI, aceitas em uso (QGU, Tabela 4)
GrandezaUnidadeValor em unidades SI
tempominuto (min)1 min = 60 s
hora (h)1 h = 60 min = 3 600 s
dia (d)1 d = 24 h = 86 400 s
comprimentounidade astronômica (ua)1 ua = 149 597 870 700 m
ângulo planograu (°)1° = (π/180) rad
minuto (′)1′ = (1/60)° = (π/10 800) rad
segundo (″)1″ = (1/60)′ = (π/648 000) rad
áreahectare (ha)1 ha = 1 hm2 = 104 m2
volumelitro (L, l)1 L = 1 dm3 = 10−3 m3
massatonelada (t)1 t = 103 kg
dalton (Da)1 Da ≈ 1,660 539 × 10−27 kg
energiaelétron-volt (eV)1 eV = 1,602 176 634 × 10−19 J
logarítmicasneper, bel, decibelNp, B, dB

As do antigo sistema CGS, que o QGU registra na sua tabela geral “para atender necessidade específica de determinados grupos”: o gal (aceleração), a dina (força, 1 dyn = 10−5 N), o poise e o stokes (viscosidade), o erg (energia, 1 erg = 10−7 J).

As que o QGU não lista. O kgf do mostrador do dinamômetro não está em nenhuma tabela do quadro. Nem a oitava, nem o quilate do ouro. Elas continuam existindo — no comércio, nas oficinas, nos museus — e o fator de conversão de cada uma fica na publicação do autor para o laboratório de ensino: 1 kgf ≈ 9,81 N; 1 quilate = 2,0 × 10−4 kg; 1 oitava ≈ 3,586 g. Usá-las num relatório exige a conversão à vista.

Na bancada. A A3 é a tarefa desta parte: a rampa de fórmica medida no transferidor dá algo como 15°, e a Tabela 4 converte — 15 × π/180 ≈ 0,26 rad. Na B2, o mostrador em kgf vira newton. A regra prática do relatório: mede-se no instrumento que existe, relata-se na unidade do SI, com a conversão à vista.

Aplicação — história. A medida desta cidade ficou fora do quadro. A oitava pesou o ouro que construiu as igrejas da Praça Tiradentes; hoje ela mora no Museu de Ciência e Técnica, ao lado da balança que a media, e não na tabela de unidades do país. O SI não apagou essa história: só deixou de precisar dela para se entender com o resto do mundo.

Aplicação — prática docente. Esta é a parte que uma turma acha chata — até ver o custo do erro. Em 1999 a NASA perdeu a sonda Mars Climate Orbiter, de 125 milhões de dólares, porque uma equipe entregou dados em libra-força-segundo e a outra leu como newton-segundo. A sonda entrou baixo demais na atmosfera de Marte e se desfez (Figura 10). Nenhum dos dois lados errou a conta; erraram a unidade.

Figura 10
Figura 10 — Setembro de 1999: a Mars Climate Orbiter entra baixo demais na atmosfera de Marte. Uma equipe mandou libra-força-segundo; a outra leu newton-segundo.
Tópico 5 — A Tabela Geral: as derivadas da Mecânica (QGU, parte 5)

Sete unidades não descrevem o mundo sozinhas. Falta a área da bancada, a velocidade do carrinho, a densidade do cilindro, a força que você mediu com o dinamômetro. A última parte do QGU é uma tabela geral de unidades, dividida por áreas, de 5a a 5g: grandezas espaciais e temporais, mecânicas, elétricas e magnéticas, químicas, térmicas, ópticas, atômicas e nucleares. A ILB usa duas, a 5a e a 5b; as outras ficam para as disciplinas seguintes do curso.

Uma unidade derivada é um produto de potências das unidades de base. Algumas ganham nome especial. O newton é o exemplo à mão: a Tabela 5b o define por 1 N ≔ 1 kg·m/s2 — por trás do nome curto há três unidades de base. O pascal é 1 N/m2; o joule, N·m; o watt, J/s.

Quadro 5 — Derivadas da Mecânica (QGU, Tabelas 5a e 5b)
GrandezaUnidadeSímbolo
áreametro quadradom2
volumemetro cúbicom3
velocidademetro por segundom/s
aceleraçãometro por segundo quadradom/s2
frequênciahertzHz (1 Hz = 1 s−1)
densidadekilograma por metro cúbicokg/m3
quantidade de movimentokilograma metro por segundokg·m/s
forçanewtonN (1 N ≔ 1 kg·m/s2)
impulsonewton segundoN·s
torquenewton metroN·m
pressãopascalPa (1 Pa = 1 N/m2)
trabalho, energiajouleJ
potênciawattW

Repare nos nomes compostos: é metro por segundo quadrado, com o “quadrado” depois da unidade (3.1.5), e newton metro, com espaço ou hífen (3.1.4). A grafia da parte 3 continua valendo aqui.

Na bancada. A B2 pendura a massa de 100 g no dinamômetro (Figura 11). Com g ≈ 9,8 m/s2, o peso é 0,1 kg × 9,8 m/s2 ≈ 0,98 N — e a conta mostra a definição do newton funcionando: kg vezes m/s2 dá N. Massa e peso não são a mesma grandeza, e a bancada mostra isso em dois instrumentos diferentes.

Figura 11
Figura 11 — Tarefa B2: Lucas pendura a massa de 100 g no dinamômetro e Barbara lê o mostrador — 0,98 N, o kg·m/s2 funcionando na mão.

Aplicação — história. A Tabela 5b guarda, na linha da massa, uma unidade fora do SI aceita em uso: a tonelada. É nela que o Quadrilátero Ferrífero mede hoje o minério que sai das suas cavas, como a oitava mediu o ouro de Vila Rica. A região trocou de unidade quando trocou de minério.

Aplicação — metrologia. Saber de que unidades de base uma derivada é feita é a primeira conferência de qualquer resultado: se a conta deu kg·m/s e a grandeza era força, falta um segundo no denominador. Essa coerência dimensional é a mesma que, mais adiante no semestre, você vai usar para conferir uma curva ajustada aos seus dados. E a próxima trilha de bancada já começa por ela: na T02, a densidade dos cilindros sai em kg/m3, a linha da Tabela 5b.

Aplicação — prática docente. Escrever N é escrever kg·m/s2 com menos tinta. Mostrar isso a uma turma uma única vez, com o dinamômetro na mão, vale mais do que a lista de derivadas decorada.

Ato III — O Fechamento

Medidas produzem conhecimento. Esta é a frase que fecha a trilha, e ela é mais forte do que parece. A medida não descreve um mundo que já estava lá, esperando: ela produz o que se pode dizer sobre ele. Uma grandeza que ninguém sabe medir é uma grandeza sobre a qual não se pode decidir nada — nem em ciência, nem em engenharia, nem em política pública.

Você mediu seis coisas pequenas e aprendeu a escrevê-las (Figura 12). Parece pouco. Mas repare no que já mudou: quando alguém disser “a folha tem 0,1 de espessura”, você vai perguntar 0,1 o quê. Quando um mostrador disser kgf, você vai saber que aquilo não é newton, e que o QGU nem o lista. Quando vir 12 SEG escrito num quadro, vai saber que está errado — e, mais importante, onde está escrito por quê: na parte 3, seção 3.4.

O que vem na T01. Duas pessoas mediram a mesma moeda e acharam 23,4 mm e 23,5 mm. Nesta trilha nós deixamos essa diferença de lado. Na próxima, ela é o assunto: toda medida é um número e uma dúvida, e existe uma forma correta de escrever as duas juntas. As bancadas continuam montadas; muda o que se pergunta a elas.

Figura 12
Figura 12 — Sofia, Pedro, Lucas e Barbara saem do laboratório com o Roteiro de Bancada preenchido; na porta, o cartaz com os erros de escrita que a turma corrigiu na lousa.
Ciência e Arte
Sistema de proporções: Le Modulor, 1948 — Le Corbusier (1887–1965)

Em 1948, o arquiteto suíço-francês Le Corbusier publicou um sistema de proporções chamado Modulor (Figura 13). A ideia: tirar do corpo humano — de um homem de 1,83 m com o braço erguido — uma escala de medidas encadeadas pela razão áurea, e projetar com ela portas, degraus, tetos, móveis. Uma medida, nas palavras dele, harmônica à escala humana, aplicável universalmente.

Figura 13
Figura 13 — O Modulor, de Le Corbusier: a silhueta humana e a régua de proporções tirada dela.

É a mesma tensão desta trilha, e ela dá voltas. A medida começou no corpo — o pé, o palmo, a braça — e o SI a tirou de lá justamente porque o corpo varia de pessoa para pessoa. Le Corbusier faz o caminho de volta: pega a medida universal e a devolve ao corpo, agora com método, para que os prédios sirvam a quem mora neles. Não é recuo; é a mesma exigência aplicada duas vezes.

“Uma medida harmônica à escala humana, aplicável universalmente.”
— Le Modulor, Le Corbusier, 1948
Le Corbusier (La Chaux-de-Fonds, 1887 — Roquebrune-Cap-Martin, 1965). Arquiteto e urbanista. O Modulor não é uma frase dele: é a definição do próprio sistema, e por isso entra aqui assinado pela obra, não entre aspas de autor.

Condorcet quis um padrão que valesse a todos os tempos e a todos os povos; Lord Kelvin, que abre o seu Roteiro de Bancada, lembrou que quando se pode medir aquilo de que se fala, sabe-se algo sobre isso; e Le Corbusier devolveu a régua ao corpo humano. Padrão, conhecimento e escala humana — três cérebros, o mesmo gesto.

Referências — Bibliografia Básica

CAMPOS, A. A.; ALVES, E. S.; SPEZIALI, N. L. Física experimental básica na universidade. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

PIACENTINI, J. J. et al. Introdução ao laboratório de física. 2. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2018.

SANTORO, A. et al. Estimativas e erros em experimentos de física. 2. ed. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2013.

Referências — Bibliografia Complementar

HEWITT, P. G. Física conceitual. 12. ed. Porto Alegre: Bookman, 2015.

FEYNMAN, R. P.; LEIGHTON, R. B.; SANDS, M. L. Feynman: lições de física. Porto Alegre: Bookman, 2008. v. 1, 2 e 3.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física: mecânica. 10. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2016. v. 1.

Documentos e normas

INMETRO. Quadro Geral de Unidades de Medida no Brasil. [S. l.]: Inmetro, 2021. Baseado na tradução luso-brasileira de 2021 da 9.ª edição do SI.

BUREAU INTERNATIONAL DES POIDS ET MESURES. Sistema Internacional de Unidades (SI): tradução autorizada pelo BIPM da 9.ª edição de 2019. Tradução do Grupo de Trabalho luso-brasileiro Inmetro e IPQ. [S. l.]: Inmetro, 2025.

INMETRO. Vocabulário Internacional de Metrologia (VIM). Duque de Caxias: Inmetro, 2012.

AZEVEDO, J. C. S. O Sistema Internacional de Unidades: quadro geral de unidades para o laboratório de ensino. Ouro Preto: NIDEC/IFMG, 2026. (material da disciplina)

Epígrafes e obra citada

CONDORCET, N. Lema do sistema métrico decimal, 1791–1799.

THOMSON, William (Lord Kelvin). Popular Lectures and Addresses. London: Macmillan, 1889. v. 1, p. 73. (usada no Roteiro de Bancada desta trilha)

LE CORBUSIER. Le Modulor. Boulogne: Éditions de l'Architecture d'Aujourd'hui, 1948.

Terminamos por aqui, um abraço, e até o próximo encontro.
Instituto Federal de Minas Gerais NIDEC — Núcleo de Inovação e Desenvolvimento de Experimentos Científicos
IFMG campus Ouro Preto - Coordenadoria da Área de Física (CODAFIS) - Núcleo de Inovação e Desenvolvimento de Experimentos Científicos (NIDEC) · Primeira edição · 2026