IFMG campus Ouro Preto - Coordenadoria da Área de Física - Núcleo de Inovação e Desenvolvimento de Experimentos Científicos (NIDEC) · LME · T0C · Primeira edição · 2026
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Tudo é número.
— atribuída aos pitagóricos, século VI a.C.
Os pitagóricos foram a escola reunida em torno de Pitágoras de Samos (c. 570–495 a.C.). A frase não tem fonte primária: chegou até nós pela tradição, sobretudo pelo que Aristóteles escreveu sobre eles — por isso entra assinada como "atribuída". Para os pitagóricos, a harmonia de uma corda e o movimento dos astros eram razões entre números. Esta trilha leva a ideia ao pé da letra: um modelo da Mecânica só se encontra com o dado por meio de números — e eles precisam estar bem escritos.
Ato I — O Gancho
Na T0B você previu antes de medir. Agora imagine a próxima trilha de bancada. O modelo do pêndulo simples diz que, para um fio de 0,500 m, o período é T = 2π√(L/g). Pedro põe g = 9,8 m/s2 na calculadora e lê: 1,419 229 6 s. Na bancada, dez oscilações dão 14,2 s no cronômetro — um período de 1,42 s.
Pedro compara 1,419 229 6 com 1,42, vê que não são iguais e escreve no relatório: o modelo falhou por 0,000 770 4 s.
O modelo não falhou. O que falhou foi a conta. O g entrou com dois algarismos significativos, e o resultado não pode ter mais que isso: a previsão é 1,4 s, e o dado, 1,42 s, concorda com ela. Pedro comparou um número com sete algarismos inventados com um número medido — e culpou o modelo por um erro que era de escrita.
É o perigo que esta trilha previne. No Laboratório de Mecânica (LME), o experimento é objeto: o modelo prevê, a bancada mede, e a decisão "o modelo aguentou?" depende de comparar os dois na escala certa e com os algarismos que cada um tem o direito de ter. Para isso são precisas cinco ferramentas — as mesmas que a Introdução ao Laboratório (ILB) deveria ter deixado prontas, e que a T0B mostrou que não estão: ler e escrever decimais, contar algarismos significativos, arredondar, operar potências e escrever em potência de 10.
Como estudar. A T0C não tem encontro: é o Pré-Lab desta semana. Leia um tópico, faça os oito itens dele na Folha de Atividades (FA) e só então passe ao seguinte. O Testinho (TN) fecha a trilha. Nada vale nota; o placar da FA diz para onde voltar. Na T02, em 20/10, a bancada começa por ela.
Ato II — O Desenvolvimento
Os cinco tópicos seguem a ordem em que uma comparação modelo × dado precisa deles. Cada um termina com a mesma pergunta: que decisão sobre o modelo esta ferramenta permite — ou impede? A ordem de grandeza e a estimativa de Fermi ficaram na T0B; aqui entra o procedimento que elas pressupõem.
Tópico 1 — Números decimais: escrita e leitura
O valor de g que os livros dão é 9,8 m/s2. Em Ouro Preto, por causa da latitude e da altitude, ele vale cerca de 9,78 m/s2. Antes de decidir se a diferença importa, é preciso ler os dois números do mesmo jeito.
Posição. À direita da vírgula estão os décimos, centésimos e milésimos: em 9,78, o 7 são sete décimos e o 8, oito centésimos. O decimal se lê pela última ordem ("novecentos e setenta e oito centésimos") ou algarismo por algarismo ("nove vírgula sete oito"); misturar as duas leituras é ditar outro número ao colega.
Comparar. Iguale as casas: 9,80 e 9,78. A diferença é de 0,02 m/s2 — dois centésimos, cerca de 0,2 % de g. Comparar só é possível depois de alinhar as ordens; "9,78 tem mais algarismos" não diz nada sobre qual é maior.
O zero à direita. 9,8 e 9,80 têm o mesmo valor, mas não dizem a mesma coisa: o segundo afirma que alguém conhece o centésimo. Numa comparação modelo × dado, o zero que você acrescenta a mais é uma informação que você inventou.
Quadro 1 — Ler antes de comparar
Número
Última ordem
O que ele afirma
9,8 m/s2
décimo
conheço g até o décimo
9,78 m/s2
centésimo
conheço g até o centésimo
9,80 m/s2
centésimo
conheço até o centésimo — e o centésimo é zero
1,42 s
centésimo
o cronômetro (10 oscilações) chegou ao centésimo do período
Eixo Didático — a dobra da licenciatura
A turma de ensino médio compara decimais pelo comprimento: "9,78 é maior porque tem mais números". Igualar as casas antes de comparar é o gesto que desfaz isso — e é o mesmo que o licenciando vai fazer para comparar previsão e dado.
Eixo Histórico-Cultural — Ouro Preto
Simon Stevin publicou De Thiende em 1585 para que comerciantes fizessem contas com décimos em vez de frações. O ouro de Ouro Preto, dois séculos depois, ainda se pesava em oitavas, num sistema de frações.
Eixo Metrológico — a ciência da medida
A escrita do número segue o QGU (seções 3.5 e 3.6): vírgula decimal, zero à esquerda, grupos de três com pequenos espaços.
Destino do modelo — a mineração
Na usina, o teor de ferro de um lote é dado com uma casa decimal (por exemplo, 64,5 %). Ler 64,5 como "sessenta e quatro vírgula cinquenta" já é vender um lote diferente.
Tópico 2 — Algarismos significativos
Na T0B, vinte grânulos de minério foram para a balança de 0,1 g. Suponha que o visor tenha mostrado 0,3 g. Quanto pesa um grânulo — e com quantos algarismos?
O que são. Algarismos significativos são os corretos mais o primeiro duvidoso. O visor de 0,1 g dá um único algarismo para 0,3 g: o 3, já duvidoso. A massa de um grânulo, 0,3 g 20 = 0,015 g, tem direito a um algarismo significativo: 0,02 g (o arredondamento está no Tópico 3). O 20 é contagem: exato, não limita.
Por que importam aqui. O número de significativos do dado é o limite do que você pode afirmar sobre o modelo. Com um algarismo na massa do grânulo, nenhum modelo de massa pode ser "confirmado" na segunda casa.
Quadro 2 — As regras de identificação
Regra
Exemplo
Significativos
não nulo é significativo
1,42 s
3
zero entre não nulos é
0,500 m
3
zero à esquerda nunca é
0,015 g
2
zero à direita depois da vírgula é
9,80 m/s2
3
zero à direita em inteiro é ambíguo
1 500 t
2, 3 ou 4?
a potência de 10 resolve
1,50 × 103 t
3
Eixo Didático — a dobra da licenciatura
Três alunos medem o mesmo fio de pêndulo; o algarismo em que eles discordam é o duvidoso. A regra vem depois, como nome do que eles já viram.
Eixo Histórico-Cultural — Ouro Preto
Na Escola de Minas de Ouro Preto, fundada em 1876, cubar uma jazida já era dar cada número com os algarismos que a sondagem permitia — nem mais, nem menos.
Eixo Metrológico — a ciência da medida
Os significativos são a forma escrita da resolução do instrumento (VIM). O dado não pode julgar o modelo além do que o instrumento sabe.
Destino do modelo — a mineração
Uma balança rodoviária que resolve 10 kg não pode confirmar uma previsão de carga em quilos.
Tópico 3 — Regras de arredondamento
Pedro cometeu dois erros no Ato I. O primeiro foi não arredondar a previsão. O segundo teria sido arredondá-la errado.
O procedimento. (1) Escolha o critério: casas decimais em somas e subtrações; algarismos significativos em produtos, quocientes e raízes. (2) Ache o último dígito a manter. (3) Olhe o primeiro dígito a descartar: menor que 5, mantém; maior que 5, soma 1; igual a 5, sem nada depois, aplica a regra do par — o último mantido fica par. Se o 5 vem seguido de algarismo não nulo, o número já passou do meio: soma 1. E arredonda-se uma vez, no fim.
Quadro 3 — A previsão do pêndulo, no critério certo
Passo
O que acontece
critério
raiz e divisão: significativos; L tem 3 e g tem 2 ⇒ 2
calculadora
1,419 229 6 s
último mantido
o 4 (1,4)
primeiro descartado
1, menor que 5: mantém
previsão
1,4 s, contra o dado 1,42 s: concordam
A discordância falsa. Se Pedro tivesse usado g = 9,78 m/s2 (três significativos), a previsão seria 1,42 s — e a comparação ficaria mais fina. Arredondamento não é cosmético: é o que define a que distância o modelo e o dado podem discordar sem que isso signifique nada.
A regra do par, nos grânulos. 0,015 g com um significativo: último mantido 1 (ímpar), descartado 5 exato ⇒ sobe: 0,02 g. Se fosse 0,025 g: último mantido 2 (par) ⇒ fica: 0,02 g. Se fosse 0,0151 g: o 5 vem seguido de não nulo ⇒ sobe: 0,02 g.
Eixo Didático — a dobra da licenciatura
Some 0,5 + 1,5 + 2,5 + 3,5 com a turma: "sempre para cima" dá 10, a regra do par dá 8, e a soma verdadeira é 8,0. A regra deixa de ser capricho.
Eixo Histórico-Cultural — Ouro Preto
Cobrar o quinto do ouro, na Casa dos Contos, era dividir por cinco um peso que raramente dava conta exata: decidir quem fica com a fração é um problema antigo desta cidade.
Eixo Metrológico — a ciência da medida
A regra do par é a adotada pelas normas técnicas de arredondamento: em muitas operações, o desvio para cima e para baixo se cancela.
Destino do modelo — a mineração
Somar mil cargas arredondadas "sempre para cima" superestima a produção do mês. Com a regra do par, o erro não se acumula.
Tópico 4 — Potenciação
Antes de medir, um modelo pode ser descartado só olhando os expoentes. Suponha que alguém proponha T = 2π√(g/L). A unidade seria √((m·s−2/m) = √(s−2 = s−1 — um período medido em "por segundo". O modelo cai sem ir à bancada.
O conceito e as propriedades. a^n é o produto de n fatores a. As seis propriedades, com número e com unidade:
Quadro 4 — Propriedades, com a unidade junto
Propriedade
Regra
Na Mecânica
produto de mesma base
a^m a^n = a^m+n
kg·m·s−2·m = kg·m2·s−2 (J)
quociente de mesma base
a^m/a^n = a^m-n
m/(m·s−2 = s2
potência de potência
(a^m)^n = a^mn
(s21/2 = s
potência de um produto
(ab)^n = a^n b^n
(10−1 m)3 = 10−3 m3
expoente zero
a0 = 1
m/m = m0 = 1
expoente negativo
a^-n = 1/a^n
s−1 = 1/s
A razão dos diâmetros ao cubo. Na T0B, a massa do grão de areia foi inferida da massa do grânulo: mgrão = mgrânulo · (dgrão/dgrânulo)3. Com diâmetros de 0,2 mm e 2 mm, a razão é 10−1, e o cubo, 10−3: o grão tem um milésimo da massa do grânulo. É a potência de um quociente.
Eixo Didático — a dobra da licenciatura
O erro clássico, 23·22 = 45, some quando o aluno escreve os fatores por extenso uma vez. A análise dimensional é a mesma conta, com unidades no lugar de números.
Eixo Histórico-Cultural — Ouro Preto
A massa específica dos minérios do Quadrilátero, em kg/m3, é uma unidade com expoente negativo que os engenheiros da Escola de Minas usavam para cubar jazidas.
Eixo Metrológico — a ciência da medida
Toda unidade derivada do QGU é um produto de potências das unidades de base; conferir os expoentes é a primeira auditoria de um modelo.
Destino do modelo — a mineração
Cubagem de pilha: volume em m3 vezes massa específica em kg·m−3 dá kg — o expoente do metro se cancela, e é por isso que a conta faz sentido.
Tópico 5 — Potências de 10
A T0B usou a potência de dez para estimar; aqui ela serve para escrever e calcular sem errar o expoente. Do grão à cava, as medidas atravessam onze ordens de grandeza, e ninguém as escreve por extenso sem perder um zero.
Mover a vírgula. Multiplicar por 10^n leva a vírgula n casas para a direita; por 10^-n, n casas para a esquerda. Na dúvida, confira com um número fácil: multiplicar por 10−1 = 0,1 tem de diminuir o número.
Escrever. Notação científica: a × 10^n, com 1 ≤ a < 10. Número maior que 1 ⇒ expoente positivo; menor que 1 ⇒ negativo; conta-se quantas casas a vírgula andou.
Quadro 5 — Do grão à cava, em potência de 10
Medida
Notação científica
Escala
grão de areia: 0,000 2 m
2 × 10−4 m
a vírgula andou 4 casas à direita
grânulo: 0,02 g
2 × 10−5 kg
grama para kilograma: mais 3 casas
fio do pêndulo: 0,500 m
5,00 × 10−1 m
os zeros à direita ficam
cava: 1 000 m × 1 000 m × 100 m
1 × 108 m3
103 · 103 · 102 = 108
Operar. Multiplicam-se os números e somam-se os expoentes; dividem-se e subtraem-se. A massa da cava, com massa específica de 3 × 103 kg/m3: (1 × 108(3 × 103 = 3 × 1011 kg = 3 × 108 t.
Eixo Didático — a dobra da licenciatura
Peça o sentido da vírgula pelo tamanho do resultado, nunca por regra decorada: "ficou maior ou menor?".
Eixo Histórico-Cultural — Ouro Preto
Arquimedes, em O Contador de Areia, inventou ordens de números para escrever quantos grãos caberiam no universo — a ideia da notação científica, quase dois mil anos antes dela.
Eixo Metrológico — a ciência da medida
Os prefixos do QGU são potências de 10 com nome; as constantes da Tabela 1 só cabem nessa escrita.
Destino do modelo — a mineração
A produção anual de uma mina se escreve em 107 toneladas; a do grão, em 10−8 kg. A mesma régua, dezoito ordens de grandeza de distância.
Ato III — O Fechamento
O relatório de Pedro, reescrito. Leitura: 1,419 229 6 e 1,42 são decimais de última ordem diferente (Tópico 1). O g tinha dois significativos (Tópico 2). Raiz e divisão pedem o critério dos significativos; a previsão é 1,4 s (Tópico 3). A unidade de √(L/g) é segundo, e o modelo passou na auditoria dos expoentes antes de chegar à bancada (Tópico 4). Em potência de 10, 1,4 × 100 s (Tópico 5). A frase certa no relatório: o modelo prevê 1,4 s; o dado, 1,42 s; concordam dentro dos algarismos da previsão.
A T02, Lidando com a Incerteza, troca "dentro dos algarismos" por um número: a incerteza. Mas ela parte daqui. Sem as cinco ferramentas, toda incerteza é calculada sobre números mal escritos — e todo modelo é julgado por erros que não são dele.
Agora a Folha de Atividades. Oito itens por tópico; os últimos de cada um pedem uma decisão sobre um modelo.
Ciência e Arte
Xilogravura:Limite Circular III, 1959 — M. C. Escher
Em 1959, o gravador holandês M. C. Escher cortou em madeira Limite Circular III: peixes que nadam em fileiras curvas dentro de um disco, cada fileira menor que a anterior, até que, perto da borda, ficam pequenos demais para o olho. A regra é uma só, repetida; o que muda é a escala. Escher chegou ao desenho estudando uma figura de geometria hiperbólica que o matemático H. S. M. Coxeter lhe mostrou — um artista lendo matemática para conseguir desenhar o infinito num espaço finito.
É a potência de 10 vista por dentro. O peixe da borda é o mesmo peixe do centro, multiplicado muitas vezes por um fator menor que 1. Errar o expoente, na gravura, seria pôr um peixe gigante na borda — e o desenho inteiro deixaria de fazer sentido, como a previsão de Pedro com sete algarismos inventados.
Três cérebros, o mesmo gesto. Os pitagóricos disseram que tudo é número; Galileu, que abre a sua Folha de Atividades, escreveu que o livro da natureza está em língua matemática; e Escher fez a escala virar imagem, peixe a peixe, até a borda. O número como linguagem, a medida como leitura, a escala como forma — três criações do mesmo cérebro, como escreveu Miguel Nicolelis.
Básica
CAMPOS, A. A.; ALVES, E. S.; SPEZIALI, N. L. Física experimental básica na universidade. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.
PIACENTINI, J. J. et al. Introdução ao laboratório de física. 2. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2018.
SANTORO, A. et al. Estimativas e erros em experimentos de física. 2. ed. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2013.
Documentos e normas
INMETRO. Quadro Geral de Unidades de Medida no Brasil. [S. l.]: Inmetro, 2021.
INMETRO. Vocabulário Internacional de Metrologia (VIM): conceitos fundamentais e gerais e termos associados. Duque de Caxias: Inmetro, 2012.
Epígrafes e obras citadas
ARISTÓTELES. Metafísica, livro A. (fonte da tradição sobre os pitagóricos)
GALILEI, G. O Ensaiador. 1623. (abre a Folha de Atividades desta trilha)
ESCHER, M. C. Limite Circular III. Xilogravura, 1959.
STEVIN, S. De Thiende. Leiden: Christoffel Plantijn, 1585.
ARQUIMEDES. O Contador de Areia. Século III a.C.
Terminamos por aqui, um abraço, e até o próximo encontro.
IFMG campus Ouro Preto - Coordenadoria da Área de Física (CODAFIS) - Núcleo de Inovação e Desenvolvimento de Experimentos Científicos (NIDEC) · Primeira edição · 2026